O que os olhos não vêem

Julho 13, 2009 por Alison Gross

O que os olhos não vêem o microscópio vê.

Willard Wigan era um menino de 5 anos dislexo, inibido, e encontrou seu refúgio construindo casinhas pra formigas. Depois disso vieram sapatinhos e chapéus.

Hoje Willard faz esculturas inteiras que cabem no buraco de uma agulha ou na cabeça de um alfinete.

 Ao lado temos a corte de Henrique VIII. Não apenas uma, mas 7 microesculturas com todos os detalhes.

Aposto que agora você se sente ridículo quando não consegue enfiar uma mísera linha nesse buraco.

O Mágico de Oz, Os Simpsons, Peter Pan, Marilyn Monroe, Oscar, Estátua da Liberdade, Davi, Yellow Submarine, A Branca de Neve e os Sete Anões, são alguns dos trabalhos de Willard Wigan disponíveis em sites de busca.

Cada escultura demora uma média de 3 meses para ser finalizada; Wigan vende apenas uma pequena quantidade delas por ano, e não quero nem imaginar o preço.

E o mais legal é que elas vêm uma “caixinha” super high-tech!

Acima de todos

Julho 10, 2009 por Alison Gross

Ron Mueck.

Esse nome te causa algum impacto?

Se não causa é porque certamente ainda não conhece o australiano que deixou qualquer limite de realismo artístico no chinelo.

Tendo trabalhado em filmes como “O Labirinto” de David Bowie na década de 80, Mueck utiliza a técnica cinematográfica e dispõe de materiais modernos para estabelecer o espantoso hiperrealismo de suas criações.

Tentar falar de todos os seus trabalhos magníficos em um só post seria quase criminoso, mas não me contenho e tenho que ao menos mostrar alguns deles.

O close do rosto da peça “Big Man” mostra a razão de o artista ter alcançado um novo nível de perfeição. A troca do que é “agradável aos olhos” por “o que é capaz de ultrapassar limites” produz motivação para que uma peça seja trabalhada por anos para que cada milímetro seja levado ao extremo do realismo.

Um dos fatores que faz com que seu hiperrealismo não seja enfadonho e desinteressante é o desapego às proporções. O artista lida com peças gigantes e miniaturas, e, fora isso, não há nada que separe sua arte de um real ser humano, se colocados lado a lado. Na imagem ao lado podemos ver isso bem claramente.

Em “Spooning Couple”, acima, percebe-se também a genialidade com que Mueck lida com as relações inter-pessoais. Infelizmente na miniatura não há como captar o olhar do casal. Cliquem aqui para ver com mais detalhes.

 

As rugas, veias, pêlos, textura e coloração não seriam, sozinhas, o suficiente para transcender tudo o que já foi feito. A expressão, corporal e facial, tampouco seria.

O que dá vida ao seu trabalho é a união dos dois aspéctos. A fidelidade anatômica aliada à  sensibilidade e percepção aguçada do psicológico e comportamental humano é o que eleva o status artístico de Ron Mueck; deixa de ser um entre muitos, para ser O UM, acima de muitos. E, me arrisco a dizer, “O UM” acima de todos.

 

 

RON MUECK.

Agora causou algum impacto?

The Garden

Julho 7, 2009 por lelucciole

Abrindo a categoria de literatura do blog, temos um dos maiores mestres da obscuridade: H.P. Lovecraft. Apesar de ser conhecido por seus contos macabros, vale a pena também conhecer a arte poética do autor.

O peso que ele insere em cada palavra é uma coisa de outro mundo ,  seus contos e poesias  são deliciosamente apavorantes de um modo melódico, melancólico e simples.

Enfim, não há muito o que dizer sobre “THE GARDEN”, leiam e eu tenho certeza de que se identificarão e terão suas próprias interpretações.

Apenas um adendo: É importante ler o original (em inglês) também se possível, pois muitas características da personalidade da obra se perdem na mudança de idioma e adaptação.

The Garden

“There’s an ancient, ancient garden that I see sometimes in dreams,
Where the very Maytime sunlight plays and glows with spectral gleams;
Where the gaudy-tinted blossoms seem to wither into grey,
And the crumbling walls and pillars waken thoughts of yesterday.
There are vines in nooks and crannies, and there’s moss about the pool,
And the tangled weedy thicket chokes the arbour dark and cool:
In the silent sunken pathways springs a herbage sparse and spare,
Where the musty scent of dead things dulls the fragrance of the air.
There is not a living creature in the lonely space around,
And the hedge~encompass’d d quiet never echoes to a sound.
As I walk, and wait, and listen, I will often seek to find
When it was I knew that garden in an age long left behind;
I will oft conjure a vision of a day that is no more,
As I gaze upon the grey, grey scenes I feel I knew before.
Then a sadness settles o’er me, and a tremor seems to start -
For I know the flow’rs are shrivell’d hopes – the garden is my heart.”


O JARDIM
Existe um jardim antigo com o qual às vezes sonho,
sobre o qual o sol de maio despeja um brilho tristonho;
onde as flores mais vistosas perderam a cor, secaram;
e as paredes e as colunas são idéias que passaram.
Crescem heras de entre as fendas, e o matagal desgrenhado
sufoca a pérgula, e o tanque foi pelo musgo tomado.
Pelas áleas silenciosas vê-se a erva esparsa brotar,
e o odor mofado de coisas mortas se derrama no ar.
Não há nenhuma criatura viva no espaço ao redor,
e entre a quietude das cercas não se ouve qualquer rumor.

E, enquanto ando, observo, escuto, uma ânsia às vezes me invade
de saber quando é que vi tal jardim numa outra idade.
A visão de dias idos em mim ressurge e demora,
quando olho as cenas cinzentas que sinto ter visto outrora.
E, de tristeza, estremeço ao ver que essas flores são
minhas esperanças murchas – e o jardim, meu coração.

(adaptação para a língua portuguesa)

O mestre, Howard Phillips Lovecraft

La Belle Polonaise

Julho 5, 2009 por lelucciole

Vamos abrir a semana com o incomparável estilo da polaca Tamara de Lempicka, nessa linda pintura de 1930 entitulada “Jeune Fille en Vert”.

lempicka_fillevert

A artista representa com louvores o Art Déco, mesclando Cubismo, Art Nouveau e Futurismo. Apesar de estar intimamente ligada ao movimento da época, sua personalidade, como um ser humano revolucionário e único, está impressa e eternizada em cada detalhe de cada obra.

Cores vibrantes, traços definidos e sombras acentuadas são a base perfeita para a misteriosa figura com ares de Jessica Rabbit retratada em Jeune Fille en Vert. As feições, que lembram as da própria Tamara, são semelhantes também às presentes em vários outros trabalhos da artista, o que pode indicar o cunho ”autobiográfico” dos mesmos.

O caimento de pano é perfeito, tanto do vestido quanto das luvas, e exibe com precisão a textura dos diferentes materiais retratados. No vestido, revelando um corpo natural e relaxado, a transparência e suavidade são predominantes sem que se perca a característica cubista. A sensualidade dos seios e barriga é complementada pelo delicado movimento das mãos e a languidez do olhar perdido sob o chapéu.

Veja com todos os detalhes: clique aqui

Hitlerjunge Salomon

Julho 4, 2009 por lelucciole

 

É certo que existem incontáveis filmes sobre Hitler e o Nacional Socialismo, mas poucos retratam a época de modo tão envolvente quanto “Hitlerjunge Salomon” (internacionalmente conhecido como “Europa Europa”).

O diferencial do filme é seu foco, que foge do padrão dominantemente histórico sem perder o impacto da situação na vida da sociedade. Hitlerjunge aborda outros aspectos do governo nazi, como a doutrinação das massas e sua influência sobretudo na juventude hitlerista. A questão semita é abordada de um modo muito mais profundo do que a já desgastada imagem dos campos de concentração; explora o sentimento de se sentir moral e humanamente diminuído e perdido em uma europa onde não se sabe mais quem é quem ou o que.

O filme, dirigido por Agnieszka Holland, conta a história verídica de Salomon Perel, um judeu de 16 anos que, longe de sua família, luta para esconder suas origens no fanatismo do mundo anti-semita.

Sandra Guinle

Julho 3, 2009 por lelucciole

Ontem em um evento badalado da minha cidade tive o prazer de conhecer pessoalmente a obra e a artista: Cenas Infantis de Sandra Guinle, retrata as brincadeiras da infância com maestria. A artista domina a matéria e faz dela o que bem entender, os movimentos são suaves e muito naturais.

Isso é a arte brasileira!

Ashes and Snow

Julho 3, 2009 por lelucciole

Gregory Colbert é a prova definitiva de que fotografia é arte. De que para ser fotógrafo de verdade é preciso mais do que uma câmera boa. Para ser um fotógrafo de verdade é preciso o DOM, assim como na pintura, escultura, dança e música.

Escolhi 5 fotografias de um de seus trabalhos mais conhecidos, “Ashes and Snow”. São imagens que já caíram nas garras do popular. Eu mesma, já conhecia várias das fotografias sem saber quem era o autor.

As imagens são estonteates e NÃO FORAM TRABALHADAS DIGITALMENTE (acredite se quiser).

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“When I started Ashes and Snow in 1992 I set out to explore the relationship between man and animals from the inside out.” (Gregory Colbert)

King Mood ou Vanilla Crimson?

Julho 1, 2009 por lelucciole

O que acontece se  juntarmos uma das melhores músicas da história do rock progressivo com um grupo de japonesas empunhadas de instrumentos clássicos?

Eis a resposta:

“21st Century Schizoid Man” por King Crimson.

Vanilla Mood é formada por Waka (flauta), Keiko (piano), Mariko (cello) e Yui (violino) .

 

Le Transi de René de Chalon

Junho 30, 2009 por lelucciole

Ontem conversando com um amigo acabei me lembrando de “Le Transi de René de Chalon”, uma incrível escultura de 1547. Feita em pedra calcária, a peça tem 2,10 m de altura e representa René de Chalon, príncipe de Orange.

Filho do conde Henrique III de Nassau-Breda e Claudia de Chalon,  René de  Chalon (também conhecido como Renato de Chalon) herdou o título de Príncipe de  Orange de seu tio materno Philibert de Chalon.

Casou-se em 1540 com Anna de Lorraine e tiveram uma filha, Maria, que sobreviveu apenas 3 semanas. Por essa razão, René de Chalon, sem descendentes,  foi o último Príncipe de Orange com ascendência da  Casa de Baux.

Estava a serviço de  Charles V quando foi morto durante a  batalha  de Saint-Dizier, em 1544 . Três anos após sua morte, Anna de Lorraine, a pedido do marido, pede ao escultor  da corte, Ligier Richier, que o represente entregando seu coração a Deus.

A obra demonstra notável conhecimento de anatomia do artista e pode ter várias interpretações, sobretudo relativas à efemeridade da vida. Há uma forte e bela  contrariedade entre o objeto representado – ossos, restos, podridão – e no gracioso movimento de  devoção ao  transcendental. Le Transi é fortemente arraigada às  tendências do século XIV, como ‘La Danse Macabre’.

Danse Macabre

O crânio, tradicionalmente o maior símbolo da vaidade (Vanitas) e do fim inerente, é um ponto-chave na simbologia da peça. As órbitas vazias  direcionam-se ao céu, altiva e honradamente, como que oferecendo seu último sacrifício à Deus: o próprio coração.
Podemos ver ao lado o realismo e detalhamento do pescoço.

Até 1790, a estátua segurava uma caixinha vermelha contendo verdadeiramente o coração de René de Chalon.

Foi roubado e posteriormente substituído pelo  coração de gesso da imagem ao lado.

transi
O gesto da  mão direita, repousando no peito, faz referência à “firmeza da alma” e sinceridade, sendo complementado pelo  escudo que pende na lateral do esqueleto representando sua bravura e morte em campo de batalha.
O escudo não possui brasão nem qualquer tipo de detalhe, e simboliza assim a perda de identidade e de  valores da vida terrena.
Na imagem da esquerda podemos ver também todo o desgaste da vestimenta se decompondo e se misturando às costelas.

Normalmente a escultura é associada à religiosidade, mas há a possibilidade de que seja na realidade uma prova de amor à Anna de Lorraine.
Le Transi encontra-se atualmente na Igreja de Saint-Étienne em Bar-le-Duc, na  França.
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